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quarta-feira, 7 de maio de 2014

Segunda Carta para Julieta

Cara Julieta,

Hoje recebi um bilhete de um fantasma.

Não está sendo fácil, minha amiga. Conversei com Romeu e, apesar de no atual momento dividirmos apenas um coração, nossos fantasmas e karmas ainda nos assombram - e nos aterrorizam. O meu fantasma ainda está muito presente na minha vida em vários sentidos, detesto admitir. Sabe quando, apesar de estarmos felizes, procuramos aquilo que todos chamam de "closer"? Isso é algo que ainda procuro, minha cara. Tenho conversado com queridos amigos e amigas, tentando juntar os pedaços perdidos do quebra-cabeça, e a figura final está quase completa. Também, e infelizmente, revela algo muito mais complicado e apodrecido do que eu poderia imaginar.

Falta apenas um pequeno conjunto de peças para que eu finalmente consiga chegar à raiz da situação, ao cerne desse fantasma e de todos os seus malfeitos. Mas falta-me a coragem, Julieta. Será que eu quero chegar ao final? Não me sinto preparada para me desligar, apesar de saber que é exatamente o que preciso. O curioso, minha amiga, é que o pior já passou - estou livre da ameaça física! Ele é apenas um fantasma. Apesar de todas as evidências recolhidas, me encontro em negação sobre o resultado final da minha jornada. Como poder aceitar as trapaças, as falsas lamúrias (quando elas pareciam tão reais que me levavam às lágrimas!), as mentiras deslavadas? O vitimismo? Como posso aceitar que convivi com uma ilusão por tanto tempo, cega às intempéries e enganada pela fé em um final feliz com um vilão? Não, Julieta. É difícil, e confesso que me encontro em uma encruzilhada.

Preciso conversar com uma última pessoa - ainda no mundo dos vivos - para conseguir essa última parte do enigma. Acenda uma vela para mim, Julieta. Não conseguirei enfrentar isso sozinha. Apesar de a verdade me olhar nos olhos, uma parte de mim ainda se recusa a aceitar. Romeu é de grande ajuda, revelando-se incrivelmente compreensivo com os meus fantasmas; de fato, ele também conserva os próprios. Espero que, na união de nossos corações, possamos quebrar essa maldição. Sinto que o momento se aproxima, minha querida. Está cada vez mais próximo, pois a cada dia tomo um pouquinho mais de fôlego e resisto fortemente ao pânico da manipulação. Isso acontecerá nos meus próprios termos, doce amiga. E eu gostaria de gritar aos sete ventos que "quem dita as regras sou eu".

Torça por mim, minha amiga, e obrigada por me ouvir tão pacientemente - embora acredite que não tenha muitos conselhos para dar-me, tendo uma natureza tão calada.

PS: Encontrei um nome melhor para o meu Romeu, e acho que vai achá-lo interessante. "Charming", pois ele me encantou desde o primeiro momento.

Com muito carinho,
Snow White.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Rehab

Acho que a gente aprende depois de algum tempo.

Observo um copo pela metade logo em frente a ela, um cinzeiro com umas poucas bitucas. Eles não entendem quando ela diz que está se desintoxicando. Às vezes a gente precisa abater o corpo para desanuviar a mente. Eles não entendem. Falam de câncer, de doença, de vício. De que isso me importa, se finalmente ela se livra do pior de todos os vícios? O que são uns drinks e uns cigarros quando existe algo muito mais negro devorando sua alma, pedaço por pedaço? O que é uma briga de bar, o que são alguns hematomas na cara comparados a um coração devorado por vermes (lentamente, com mordidas tão pequenas que nem se percebe a morte chegando)?

A jovem discorda de seu amigo London: "Ela - não - fica a cada drink mais bonita."

O triste
é:

Ela concorda com seu amigo London: "Quero que a estrada venha sempre até você, e que o vento esteja sempre a seu favor. Quero que haja sempre uma cerveja em sua mão, e que esteja ao seu lado seu grande amor."

Mas que amor era aquele?

O amor a quebrou.

A Rehab é um lugar igualmente quebrado.

E se tudo estiver acontecendo em seu Palácio Mental?

Ele já salvou Sherlock da morte.

Poderia salvá-la também.

Explicaria as paredes acinzentadas, a falta de um garçom. Explicaria sua solidão naquela espelunca. Explicaria o fato de ser uma espelunca. É um vestígio, um pedaço do apodrecido. É o bar que o veneno criou. O veneno está aos poucos saindo do organismo (snap it, work it, quick - erase it), mas ainda deixou esse buraco no Palácio.

Ela foi longe demais pra desistir de quem é.


Apenas observo enquanto ela vira a cabeça para o cinzeiro. Lentamente, a jovem o recolhe do balcão e olha para o espelho à sua frente. O que ela vê é algo que parecia ter saído de um clipe do Radiohead. Olheiras, amargura. "Quando o Sol nascer a oeste e se puser no leste. Quando os mares secarem e as montanhas forem sopradas pelo vento como folhas. Quando meu ventre voltar a ganhar vida e der à luz um filho vivo. Então regressará, meu sol-e-estrelas, e não antes." Conhecendo a impossibilidade das palavras que continuavam a ressoar no Palácio, ela atirou o cinzeiro em seu reflexo, soltando o grito mais tenebroso e mais cheio de pesar ouvido nessa Terra. O grito veio diretamente de sua alma. O espelho se estilhaçou em incontáveis pedaços, e ela finalmente encontrou a saída secreta da Rehab. Ali havia uma tesoura, com a qual ela prontamente cortou as longas madeixas e também as deixou para trás. Entrou então pelo túnel atrás do espelho, e começou a trilhar pela saída. Deixava para trás mapas, cartas, flores, votos. Deixava todas as suas lembranças.

Por fim, ela chegou a um detonador que ficava na metade do caminho. Ela o acionou sem olhar para trás.

No fim do túnel, olhos castanhos e um abraço exatamente do seu tamanho a esperavam emanando um calor que há anos ela não sentia.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Anthony's Monologue

"There was a time, in a not very distant past, when people died like flies. The country was at war, a civil war. Servants and Lords, highborn and forgotten children, maids and ladies... People from every rank of our broken society just kept dying. Of course, most people survived. But there were many who did not see daylight again.

Still, about the survivors... A lot of them lost some limbs to the explosions. Nowadays, is not hard to find people with iron arms or legs, or devices to keep bomb fragments away from vital organs. Yet, that's never a pretty sight. We lost more people for infection than for bullets. In a world where medicinal herbs were rare and more expensive than jewlery, the life of almost every amputee had its days counted down.

Most women who suffered from this kind of injure commited suicide. The strong ones who decide to keep living were forced to hide their iron arms, dealing with them with a certain clumsiness and never being allowed to embrace the protesis thing properly, as the man were free do to as they pleased. The iron legs were easier to hide... But it was a tough life anyway.

And that was rather convenient to Erian.

She lost a hand, but it wasn't for an explosion. The girl was dueling with someone, in a pillage we did a long time ago, and one man cut off her hand. She payed him back cutting his throat open and ripping off his tongue with the hand she had left. It was quite an achievement, and only then our men truly started to respect her. When we finally got her an iron hand, she did the attachment herself. And the infection started to crawl her arm, until one day she came out of her chambers with a new iron hand; this time, it had part of a forearm as well. She asked my help to keep the blood from flowing out of her arm. At first, I did not knew what she meant.

But soon enough she made a tourniquet, and horror came to me when I realized that she was just about to cut the infection out, to keep her alive for as long as she could rip off pieces of her rotting arm. She did the cutting herself... She did EVERYTHING herself. Once again I saw horrifying attachment being done... And that was it.

I found out that she would have to do that every five years. We had enough resources to slow down the infection, at the very least. Not only she managed to stay alive, but she also used that iron arm as a second weapon. And that was how she became famous. 'The woman with the iron claws'. She even added some emerald fingernails to that thing later.

Now that became dangerous. But the convenient part of living in a society where a civil war happened, is that she is not alone on the iron arm thing. And a very good consequence of that is a very simple detail that will allow her to sucessfully play her new role as a modest and invisible housewife: all women these days wear gloves. All the time."

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DISCLAIMER: Não é bem um conto. É um monologo que faz parte da narração da história de Erian, minha protagonista, para um projeto futuro, que pode virar livro ou graphic novel (ainda não sei). Mas achei válido postar aqui anyway o/ como boas vindas às novas marés da vida.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Aportando pela primeira vez.

- Ainda acho que é uma ideia precipitada...

- Cale a boca, Barker. Sei o que estou fazendo.

Os dois viajantes usavam capas muito grossas, e se protegiam da chuva forte e persistente com seus capuzes. Tinham um encontro marcado com um informante em uma taverna na rua principal do vilarejo adjacente à cidade de Norwich. Seus passos abafados pelos trovões eram rápidos e discretos, e seus vultos se esgueiravam a cada lampejo no meio da tempestade. Se alguém os reconhecesse tudo estaria perdido; entretanto, a informação coletada seria a mais valiosa até então. Os dois prosseguiam apressados até finalmente chegarem ao local escolhido: O Beholder Caolho.

Era um lugar cheio de tipos estranhos, até mesmo para os padrões dos viajantes. Barker - um homem de porte grande e forte, porém com alguma graça em seus movimentos - puxou seu colega para o canto menos iluminado da taverna, no qual eles encontraram uma mesa entre as sombras. O tempo deles era limitado: tinham até a próxima briga de bar para conseguirem a informação e se esgueirarem de volta para o zeppelin que sobrevoava o vilarejo naquele instante. Não se deram ao trabalho de baixar os capuzes; ninguém naquele tipo de lugar o fazia. Os que não frequentavam O Beholder Caolho pela cerveja barata o faziam para tratar de negócios obscuros. O anormal seria um happy hour acontecer naquele lugar.

Os dois esperaram. Foi uma espera que pareceu eterna, mas finalmente o informante chegou; era um homem pequeno, atarracado, de aparência suja e mazelada. Instruído a procurar a mesa mais escondida do lugar ele foi, e logo fazia contato com aqueles dois vultos encapuzados. A transação iniciou-se quando Erian, uma pessoa muito menor e com uma aura muito mais ameaçadora do que a de Barker, estendeu um peso de ouro para o homem. Mas o que chamou a atenção dele, num primeiro momento, não foi o brilho da moeda estendida, mas a mão que a estendia. Era uma prótese feita do que aparentava ser uma liga metálica resistente e maleável. Parecia forte. Poderia em poucos segundos estraçalhar sua garganta. O informante se sentiu estranhamente atraído para uma ratoeira naquele momento; achou que as coisas não podiam piorar.

Foi aí que ele ouviu a voz que vinha daquela pessoa: era uma mulher.

- Apresentações são dispensadas. Pode começar a falar. - disse Erian, num tom claramente hostil. Barker observava o movimento da taverna, enquanto ouvia a conversa. Sua mão direita estava pronta para empunhar uma arma.

- Eu não quero problemas, por favor... - começou o homem, numa breve súplica. - Sei pouquíssimo sobre a situação, mas ouvi algumas coisas. A ordem de execução selada definitivamente saiu de Norwich, e chegou aos corsários através de falcões. Também ouvi, enquanto servia uma refeição para o Capitão Gilles, uma definição de estratégia para o ataque do Mother Mary...

- Nomes. - interrompeu Erian, impaciente. - Eu vim aqui para coletar nomes. Quais são os que você me dará, sr. Davos?

- Já estou chegando lá... - explicou-se, olhando para a mão metálica batendo seus dedos na mesa de madeira com irritação. - Eu desertei aquele zeppelin, estava com muito medo do conflito, e quando ouvi falar do massacre ocorrido depois agradeci aos Deuses por me iluminarem e me ajudarem a fugir... Mas antes de abandonar a tripulação eu ouvi um sobrenome: Dawies. - concluiu, enfim.

- Isso é quase alguma coisa, mas estou mais interessada na ordem selada. Chegou a ver o selo, sr. Davos? Como ele era? - perguntou a mulher, com genuíno interesse.

- Vi de relance. Parecia uma montanha, mas nela havia algo muito grande enrolado... Algo como uma serpente gigante, ou um...

- Dragão? - completou Erian, sabendo em que família aquilo resultaria.

- Sim, poderia ser um dragão sim. - confirmou o homem. - Permita-me--

O homem nunca pôde terminar sua frase, pois no centro da taverna uma mesa foi virada em cima de um homem, e uma briga se iniciou. Em poucos segundos todo o bar estava em polvorosa. Mas Davos não teve a chance de fugir, ou de entrar na briga, pois no meio daquela baderna ele teve a sua traquéia perfurada e arrancada pelas garras metálicas das quais ele teve tanto receio. Seu corpo caiu ao chão e foi arrastado para baixo da mesa, enquanto os dois viajantes saíam do estabelecimento da forma mais silenciosa possível.

***

- Aquilo foi realmente necessário, Erian? - perguntou Barker, enquanto procuravam o mesmo ponto em que aportaram naquela noite.

- É a segunda vez no dia de hoje em que dá a sua opinião sem ela ser pedida. - ela respondeu, subindo depressa uma encosta. - Informantes são armas perigosas, pois suas informações irremediavelmente passeiam de um lado da história para o outro. Isso foi apenas mais um nó na nossa rede cheia de pontas soltas.

- Descobrimos algo de valioso, pelo menos?

- Conseguimos a confirmação do que antes era uma teoria entre uma centena.

Ao atingirem o topo da encosta, Barker tateou o ar até encontrar uma escada de corda. Baixou-a, então, para que Erian começasse a subida. Esta, antes de prosseguir, fitou o homem.

- Temos de agilizar os papéis do casamento, Anthony. Em três meses nossa infiltração em Norwich se iniciará.

Barker sorriu pesarosamente e, subindo atrás dela, remoeu certos pensamentos.
"Em três meses vislumbraremos pela primeira vez o Inferno. Deus nos ajude."